A Polícia Militar do Espírito Santo determinou o afastamento imediato de seis agentes que presenciaram, sem agir, a execução de duas mulheres pelo cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale, ocorrida no início de abril em Cariacica, na Região Metropolitana de Vitória. A decisão, anunciada nesta data, transfere os militares para funções burocráticas internas e suspende o porte de arma de fogo durante o expediente administrativo.
A medida disciplinar foi tomada após a obtenção de novas evidências em vídeo. A investigação interna teve acesso a gravações de câmeras de segurança da via pública que revelam um ângulo mais amplo da cena do crime. As imagens, captadas na rua Cinco de Maio, no bairro Cruzeiro do Sul, mostram de maneira mais nítida a conduta dos agentes durante os disparos.
O comandante-geral da PM, coronel Ríodo Lopes Rubim, classificou a atitude dos subordinados como omissão injustificável diante do treinamento recebido pela tropa.
“O que a gente ensina nas instruções é que haja intervenção em todo crime e tentativa contra a vida, mesmo por parte de um colega, quem quer que seja. Ali, eles tinham que agir para cessar aquela agressão injusta”, declarou o oficial.
Entre os afastados está um sargento, patente superior à do cabo investigado pelo duplo homicídio. De acordo com o comandante, esse militar chegou a formalizar a prisão de Vale ao término da ação criminosa, mas não atuou para conter os disparos enquanto eles ocorriam.
“O que se esperava era uma atitude anterior dos nossos policiais para se evitar aquele mal maior”, reforçou Rubim.
O comando da PM argumenta que não havia qualquer determinação operacional, expressa ou tácita, que autorizasse a presença do cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale naquela ocorrência. O policial encontrava-se afastado das funções de rua desde 2022, quando respondeu pela morte de uma mulher trans, e não deveria ter se deslocado de seu posto de serviço administrativo para o local da discussão.
Paralelamente ao afastamento das testemunhas, a corporação instaurou um processo administrativo visando à demissão do cabo Vale. A conclusão desse procedimento, no entanto, não será imediata e pode levar pelo menos 20 dias para um desfecho.
O crime ocorreu no dia 8 de abril. Segundo as investigações, o militar foi acionado pela ex-esposa para intervir em uma discussão cuja motivação não foi detalhada nos autos. Apesar de estar em horário de expediente, ele se deslocou até o endereço acompanhado de outros policiais em uma viatura.
Imagens do circuito de segurança flagraram o momento em que Daniele Toneto e Francisca Chaguiana Dias Viana estavam sentadas na calçada, do outro lado da rua do prédio onde moravam, quando a guarnição chegou. O vídeo mostra o PM efetuando os disparos: uma das vítimas foi alvejada ainda sentada, enquanto a segunda tentou fugir correndo pela via, sendo perseguida e baleada metros adiante.
Daniele faleceu no local do ataque. Francisca foi socorrida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas não resistiu e morreu na unidade hospitalar.
Após os tiros, o cabo foi detido em flagrante pelos colegas de farda e conduzido à Delegacia de Polícia Civil. Posteriormente, a prisão foi convertida em preventiva durante audiência de custódia, conforme informado pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo.