sábado, 28 de fevereiro de 2026

‘Oração da ext0rsão’ e vídeos de t0rtura expõem quadrilha que incluía PMs e advogada

Uma gravação descrita por investigadores como “escandalosa” e “assustadora” tornou-se o símbolo da frieza de uma organização criminosa desarticulada pela Polícia Civil de Goiás. No vídeo, a advogada Tatiane Meireles e o sargento da Polícia Militar Hebert Póvoa aparecem realizando um ritual sobre pilhas de dinheiro, em um ato que foi batizado pela polícia de “oração da extorsão”.

As imagens, capturadas em Luziânia, na região do Entorno do Distrito Federal, mostram Tatiane conduzindo uma prece agradecendo e pedindo a multiplicação dos valores, enquanto o sargento, calado, mantém as mãos sobre as cédulas. “Pedimos a Deus que multiplique esse dinheiro. Que o dinheiro retorne para nós”, diz a advogada na gravação, obtida durante uma operação no dia 28 de novembro.

Para as autoridades, a cena não é apenas bizarra, mas reveladora. Ela ilustra o nível de organização, confiança e total dessensibilização do grupo, que via o produto de crimes violentos como algo a ser abençoado. O dinheiro sobre o qual rezavam era fruto de uma prática sistemática de agiotagem, extorsão, sequestro e tortura contra vítimas endividadas.

A operação prendeu seis integrantes da quadrilha, entre eles o sargento Póvoa (ex-candidato a vereador), sua esposa Tatiane Meireles, outros dois policiais militares e dois civis. A investigação teve início a partir de uma denúncia interna da própria PM de Goiás, que detectou indícios de crimes graves envolvendo seus militares.

Além do vídeo simbólico do ritual, os policiais coletaram provas audiovisuais da brutalidade empregada nas cobranças. Em uma das gravações mais chocantes, o sargento Hebert Póvoa invade a casa de uma mulher, aparece armado e desfere uma série de tapas em seu rosto, enquanto a insulta com palavrões. A vítima, aterrorizada e chorando, tenta se explicar, oferecendo até que revistem seu armário para provar que não tinha condições de pagar.

Outros registros mostram cenas de tortura: homens ajoelhados, chorando e sendo espancados com tacos de baseball, cassetetes e chutes por integrantes do grupo. “Aqui no Goiás você vai aprender como funciona”, ameaça um dos agressores em um dos vídeos.

A atuação criminosa da advogada Tatiane Meireles ia além do suporte jurídico à organização. Em uma gravação, ela é flagrada participando ativamente da violência, golpeando um homem com um cassetete e gritando ordens durante uma sessão de cobrança.

Durante as buscas, a polícia apreendeu armas de fogo, instrumentos usados nas agressões e aproximadamente R$ 10 mil em dinheiro vivo, parte dele possivelmente relacionado ao montante visto no vídeo da “oração”. A estruturação do grupo, que operava com papéis definidos e método violento, levou a polícia a caracterizá-lo como uma organização criminosa sofisticada e particularmente cruel.

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