O constrangimento ainda estava estampado no rosto de Edvagner Barreto dos Santos, de 56 anos, quando ele deixou a delegacia na tarde de quinta-feira (6). “Foi constrangedor, mas estou bem”, resumiu o motorista de ônibus, arrancado à força de seu posto de trabalho por dois policiais militares. O motivo? Ele havia buzinado para pedir passagem a uma viatura que seguia lentamente pela avenida Professor Celestino Bourroul, na Zona Norte de São Paulo.
A cena, registrada por um passageiro, escancara o momento de tensão vivido dentro do coletivo da Viação Santa Brígida. Edvagner dirigia normalmente quando deu espaço para a viatura. Diante da lentidão do veículo da PM, acionou a buzina, num gesto corriqueiro de quem está ao volante e precisa seguir viagem. A reação dos agentes, porém, foi desproporcional e imediata: a viatura parou, e os dois policiais invadiram o ônibus.
As imagens mostram um dos PMs ordenando que o motorista descesse. Edvagner se recusou, argumentando que não havia cometido irregularidade alguma. Foi então que a abordagem escalou para a força física. Um dos agentes partiu para cima do trabalhador, arrastando-o para fora do veículo, enquanto uma passageira, assustada, gritava: “Calma, calma”.
Conduzido ao 13º Distrito Policial, na Casa Verde, o motorista viu o caso ser registrado como desobediência e foi liberado em seguida. No boletim de ocorrência, os policiais militares alegaram que avistaram um homem de camiseta branca em atitude suspeita. Ao notar a viatura, o pedestre teria acelerado o passo e atravessado a rua. Segundo a versão dos PMs, a equipe invadiu a faixa exclusiva de ônibus para realizar a abordagem. Foi nesse instante que Edvagner “passou a acionar insistentemente a buzina, gesticulando e afirmando que a equipe estaria obstruindo a via”.
A justificativa não convenceu o Sindmotoristas, que emitiu nota dura classificando-se como “estarrecido e indignado com a truculência” dos agentes contra o motorista e o cobrador Vilanova. A entidade defendeu que, independentemente do motivo do buzinaço, o ônibus tinha a obrigação de cumprir o itinerário e transportar os passageiros. “Houve falta de empatia e uso violento da função policial”, disparou o sindicato, que promete ingressar com uma denúncia urgente na Corregedoria da PM para investigar e punir os responsáveis.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que a Polícia Militar já analisa as imagens e apura todas as circunstâncias da ação. A pasta afirmou que a corporação “não compactua com desvios de conduta” e adota as medidas cabíveis diante de irregularidades. A SSP acrescentou que a Polícia Civil deve instaurar inquérito no 40º Distrito Policial, na Vila Santa Maria.