Há pouco mais de um mês, o advogado Sérgio Figueiredo usava tom indignado para denunciar o que chamou de “imperícia e negligência” no sistema de saúde brasileiro, revoltado com a aplicação de 9 ml de adrenalina no menino Benício Xavier, de 5 anos. A dose, segundo ele, era “incompatível até para adultos”. Agora, ironicamente, o mesmo profissional do Direito assume a defesa da médica Juliana Brasil Santos, acusada no mesmo caso que motivou suas críticas.
A virada ocorre após a Justiça negar a prisão preventiva da médica. Em vídeo recente, Figueiredo sustenta que a análise deve ser “técnica”, não emocional, e argumenta que o desfecho fatal do paciente ocorreu quase 12 horas após a suposta aplicação inadequada. Ele atribui o óbito a falhas posteriores da equipe de UTI, como manejo de medicamentos e intubação.
O discurso atual contrasta com o tom anterior, ainda em sua rede social e cujo contou com o apoio da mãe da vítima, Joyce Xavier, que pediu “justiça” e comentou na publicação. Em sua fala crítica, o advogado havia questionado a falta de checagens no hospital e citado um episódio pessoal: o pai, de 67 anos, quase morreu devido à suposta omissão de um anticoagulante. Na época, afirmou que no Brasil “muitas vezes não se morre pela doença, mas pela imperícia”, classificando a saúde pública como uma “roleta russa”, culpando médicos e toda a estrutura nos hospitais.
Agora, na defesa da médica, Figueiredo minimiza o peso da dose de adrenalina, que antes foi tratada como gravíssima, e transfere a responsabilidade para a equipe do CTI. A estratégia expõe a adaptação do discurso jurídico conforme o lado representado: agora, o de Juliana.
O caso do menino Benício segue em investigação, mas a atuação do advogado já ilustra, por si só, a complexidade e as contradições na busca por responsabilização.