O ginecologista Felipe Lucas, de 81 anos, ex-deputado estadual e ex-prefeito de Irati, no interior do Paraná, foi preso preventivamente na quarta-feira (6), em Curitiba, e liberado no dia seguinte por decisão judicial. Acusado de crimes sexuais por quatro pacientes, ele se tornou réu por violação sexual mediante fraude em um dos casos, mas teve a prisão revogada porque a Justiça entendeu que o episódio que motivou a detenção já estava prescrito.
A prisão se baseou em uma denúncia que só chegou à Polícia Civil em abril deste ano, embora o fato tenha ocorrido em 2011, na cidade de Teixeira Soares, vizinha a Irati. A vítima relatou que estava em trabalho de parto quando o médico passou aproximadamente cinco minutos tocando a parte externa de sua genitália durante um exame. Ele só interrompeu a conduta quando uma enfermeira entrou no local. O caso foi enquadrado como estupro de vulnerável, crime que, em tese, teria prazo de prescrição de 20 anos.
Ao analisar a situação, o juiz substituto Felipe Vargas Coan, da Vara Criminal de Teixeira Soares, aplicou o artigo do Código Penal que reduz pela metade os prazos de prescrição para réus com mais de 70 anos. Com isso, o período para punir o ginecologista caiu de duas décadas para dez anos, extinguindo a possibilidade de condenação por aquele fato específico. Na mesma decisão, o magistrado reconheceu que a extinção da punibilidade não impede que essas provas sirvam para robustecer outras investigações em andamento contra o médico, admitindo a possibilidade de continuidade delitiva diante de relatos mais recentes. Qualquer nova medida cautelar, no entanto, depende de decisão da comarca onde os outros supostos crimes ocorreram.
A denúncia que rompeu o silêncio e abriu as apurações atuais veio de uma jovem de 24 anos, atendida por Felipe Lucas em fevereiro deste ano, em Irati. Ela procurou a polícia sete dias após uma consulta ginecológica de rotina, afirmando que o médico realizou massagens íntimas sob a justificativa de estimular a libido. A vítima estava acompanhada do filho de cinco anos dentro do consultório. Nesse episódio, a Justiça aceitou a denúncia e Felipe Lucas se tornou réu por violação sexual mediante fraude.
Além desses dois casos, a Polícia Civil de Irati investigou outras duas denúncias, datadas de 2011 e 2016, que também vieram à tona depois que as acusações contra o ginecologista ganharam visibilidade. Em ambos os registros, as vítimas descreveram toques e massagens indevidos nas partes íntimas, que chegaram a causar dor. Esses crimes também foram considerados prescritos, mas os depoimentos foram colhidos para compor o conjunto probatório do processo em que o médico já é réu, na tentativa de demonstrar um padrão de conduta mantido ao longo de décadas. Testemunhas relataram ainda que, além do trauma sofrido, tinham medo de denunciar Felipe Lucas por causa de sua influência política na região.
A defesa do médico nega todas as acusações. O advogado responsável afirmou que Felipe Lucas jamais cometeu crime sexual em sua carreira e que as calúnias contra ele serão alvo de medidas judiciais. Sobre a prisão, a defesa a classificou como “injusta e desnecessária”, destacando que o episódio ocorreu durante um parto e que os fatos já tinham mais de 15 anos no momento da detenção.
Felipe Lucas construiu uma longa trajetória que entrelaça medicina e política. Formado pela Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná em 1975, especializou-se em ginecologia e obstetrícia e chegou a receber do Conselho Regional de Medicina do Paraná, em 2024, a homenagem “Jubileu de Ouro” pelos 50 anos de profissão. Sua inscrição no CRM-PR permanece registrada como regular.
Na política, foi vereador entre 1989 e 1992, prefeito de Irati de 1993 a 1996, e depois exerceu mandatos na Assembleia Legislativa do Paraná.