Carlos Cabrera Crespo, irmão de Araceli, vítima de um dos crimes mais chocantes de violência infantil do Brasil, reagiu à morte violenta de Dante de Brito Michelini, de 76 anos, encontrado decapitado e carbonizado em um sítio em Guarapari (ES) na última terça-feira (3). Dante havia sido absolvido pela Justiça pela morte da menina em 1973.
“Só queria que meus pais estivessem vivos para ver que Deus não falhou”, desabafou Carlos. Ele criticou a investigação original do caso, que completa 53 anos em 2026: “Um crime mal investigado, onde não fizeram sequer, ao que me consta, perícia em vários locais. No carro dos suspeitos, onde supostamente minha irmã foi levada e dopada”.
Para ele, a Justiça terrestre falhou com a família, mas há agora um sentimento de “justiça divina”. “Deus deixou esta pessoa viver bastante tempo para ele sofrer na consciência dele o mal que ele fez. Se é que ele tinha consciência. Deus tarda, mas não falha nunca”, afirmou.
Investigação e identidade confirmada
A Polícia Civil trata o caso como homicídio e investiga as circunstâncias da morte. O corpo foi oficialmente identificado nesta quinta-feira (5) por exame papiloscópico no IML de Vitória. A cabeça da vítima ainda não foi localizada.
Dante pertencia a uma das famílias mais tradicionais do Espírito Santo. Seu avô dá nome a uma importante avenida da capital. Ao longo dos anos, a família recusou-se a comentar publicamente o caso Araceli. Em rara declaração, em 1993, seu pai, Dante de Barros Michelini, negou qualquer envolvimento: “Nem eu, nem meu filho conhecíamos a Araceli, nem a mãe, nem o pai, nem coisa nenhuma. Fomos ligados ao caso após uma notícia de jornal”.
Repercussão histórica do crime
Araceli Crespo tinha 8 anos quando foi raptada, drogada, estuprada, morta e carbonizada em Vitória, em 1973. Dante foi um dos três principais acusados. Condenado inicialmente em 1980, teve a sentença anulada pelo Tribunal de Justiça do ES. Após cinco anos de revisão, todos os réus foram absolvidos por falta de provas e o caso arquivado.
A impunidade do crime motivou a criação do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado em 18 de maio (Lei Federal 9.970/2000). A data mantém viva a memória de Araceli e promove anualmente debates sobre a proteção de menores no Brasil.