Os pastores evangélicos de Roraima, Wenderson Lima de Souza, de 32 anos, e Arielly Kamila Moraes de Souza, de 24, investigados por estupro contra adolescentes e jovens da própria igreja, orientaram uma das vítimas, de 18 anos, e a tesoureira da congregação, Raquel Barros Lira da Silva, de 20, a destruir um aparelho celular que, segundo a Polícia Civil, era usado para gravar os abusos sexuais. O casal teria fugido para Manaus desde que as denúncias vieram à tona.
De acordo com os investigadores, os pastores usavam a fé e a posição de líderes religiosos para manipular as fiéis, convencendo meninas de que os atos sexuais integravam um suposto “propósito espiritual”. O inquérito da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), ao qual a reportagem teve acesso, revela a trama de destruição de provas montada após a fuga do casal para a capital amazonense, em 27 de abril.
“Ele tomou conhecimento de que as vítimas foram até a delegacia. Então fugiram de ônibus para Manaus. No caminho, lembraram que haviam deixado um celular com provas e pediram que as vítimas e testemunhas jovens fossem até a casa, pegassem o aparelho e o destruíssem. O vídeo da destruição chegou até a polícia”, detalhou a delegada Kamila Basto.
Raquel Barros teve ajuda de uma das vítimas e de uma adolescente de 17 anos para destruir o celular durante a madrugada de 28 de abril. Os destroços foram arremessados em um bueiro. A tesoureira foi indiciada por fraude processual e corrupção de menores, e a Justiça determinou que ela passe a usar tornozeleira eletrônica.
Mensagens incluídas na investigação mostram que Wenderson pediu expressamente que uma das jovens fosse até a residência do casal, situada no terreno da igreja, para recolher um celular antigo. Temendo a apreensão do dispositivo, o pastor também solicitou que uma adolescente registrasse, em nome dela, um falso boletim de ocorrência online comunicando o furto do aparelho, sob a justificativa de que ele próprio não poderia fazê-lo por estar em outro estado.
Dias depois da destruição, a pastora Arielly entrou em contato com uma das vítimas e ordenou que ela excluísse a conta de e-mail da investigada, o que resultou no apagamento de aproximadamente 14 mil fotos e vídeos, além de contatos e do perfil da igreja em uma plataforma de vídeos.
A tesoureira Raquel, identificada em registros públicos ao lado do casal, também foi apontada por uma das vítimas como peça ativa na contenção de danos à imagem dos pastores. Em uma reunião com jovens da igreja, ela recolheu os celulares de todos, colocou-os sobre a mesa e, segundo o depoimento, orientou que “escolhessem o lado certo”, defendendo Wenderson e pedindo que não mantivessem contato com as mulheres que o denunciavam.
A mesma vítima relatou que Raquel confessou que, desde 2024, todas as saídas financeiras da conta da igreja eram direcionadas para contas pessoais de Wenderson e Arielly, sem qualquer controle sobre as movimentações. Após a fuga, a tesoureira chegou a cogitar falsificar um relatório financeiro para encobrir as irregularidades. Quando fugiram, os pastores ainda levaram consigo o dinheiro das ofertas e dos dízimos da congregação.
O caso segue sob investigação, com a polícia tentando localizar o casal foragido, enquanto as provas de destruição e manipulação se acumulam no inquérito da DPCA.