Seis meses após a morte de Benício Xavier, de 6 anos, em Manaus, a família ainda busca respostas e responsabilização. O inquérito policial foi concluído com pedido de indiciamento da médica Juliana Brasil, da técnica de enfermagem Rayza Bentes e de dois diretores do Hospital e Pronto-Socorro Santa Júlia. A criança morreu após receber uma dose errada de adrenalina na veia, mas o laudo do Instituto Médico Legal (IML) ainda não foi concluído conforme esperado neste mês de maio.
Benício deu entrada no hospital em 22 de dezembro com tosse seca e suspeita de laringite. A prescrição médica incluía lavagem nasal, soro, xarope e três doses intravenosas de 3 ml de adrenalina a cada 30 minutos, totalizando 9 ml. Assim que recebeu a medicação, o menino sofreu um agravamento súbito, com sucessivas paradas cardíacas. Encaminhado à sala vermelha e depois à UTI, ele morreu cerca de 14 horas depois.
A investigação apontou uma cadeia de falhas que vão da assistência à administração hospitalar. Juliana Brasil foi indiciada por homicídio doloso com dolo eventual (quando se assume o risco de matar), além de fraude processual e falsidade ideológica.
A perícia no celular da médica revelou que, enquanto o menino era atendido, ela trocava mensagens sobre venda de cosméticos e recebia pagamentos via Pix. “É uma prova muito forte de que ela estava totalmente indiferente”, afirmou o delegado Marcelo Martins.
Licenças suspensas
A médica também se apresentava como pediatra sem ter a especialização e tentou forjar uma justificativa, segundo o delegado: ofereceu dinheiro para que alguém gravasse um vídeo alegando que o sistema eletrônico do hospital havia trocado automaticamente a via de administração do medicamento, versão descartada por perícia. Sua licença médica foi suspensa por ordem judicial, mas ela responde em liberdade. A defesa sustenta que, no momento das mensagens, Benício já não estava sob os cuidados dela.
A técnica de enfermagem Rayza Bentes, com apenas sete meses de profissão, também recebeu o indiciamento por homicídio doloso com dolo eventual. Colegas de plantão haviam preparado um kit de nebulização e a orientado a administrar a adrenalina por inalação, mas ela optou por seguir a prescrição intravenosa, sem realizar a dupla checagem de segurança exigida. Rayza está suspensa do exercício profissional e a defesa informou que ela não pretende retornar à atividade.
Os diretores do Hospital Santa Júlia foram indiciados por homicídio culposo (por negligência). A polícia constatou que, no dia do atendimento, a unidade operava com equipe de enfermagem insuficiente e sem farmacêutico para conferir a prescrição, omissões que, segundo os investigadores, tinham como objetivo cortar custos e aumentar o lucro.
O laudo conclusivo do IML ainda não foi divulgado porque o corpo de Benício foi embalsamado antes de passar pelo instituto, impossibilitando a necropsia tradicional. Agora, a análise depende de uma perícia indireta, baseada em prontuários e documentos, o que prolonga o procedimento. Os advogados da família, Paulo Feitoza, Ricardo Albuquerque e Nil Ferreira, afirmam que, sem o laudo e sem a formalização da denúncia na Justiça, a defesa não tem acesso integral aos autos e pedem que a investigação seja tratada com rigor, sem vazamentos extraoficiais.
Enquanto isso, os pais do garotinho, Joyce Xavier e Bruno Freitas, relembram a dor dia após dia nas redes sociais, uma forma de fazer o caso não cair no esquecimento. “Precisamos alcançar a JUSTIÇA, a verdade dos fatos já está escancarada. JUSTIÇA PELO NOSSO FILHO BENÍCIO”, pediu a mãe.
