Uma troca de mensagens apreendida pela polícia escancarou o que investigadores chamam de vida dupla de uma família que supostamente fingia ser missionária em Mato Grosso, mas era envolvida com uma organização criminosa. “Não dou mais conta de viver de aparência”, escreveu a pastora Orminda Almeida à filha, Rhavenna Barcelos de Almeida. A resposta veio na sequência: “Somos uma família suja”.
A conversa foi interceptada durante investigação da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco) e virou peça central de um inquérito que aponta o trio Rhavenna e os pais, Nivaldo e Orminda Almeida, como integrantes de um esquema de ligação com o Comando Vermelho (CV)
Segundo a polícia, os três faziam parte de um grupo autorizado a prestar assistência religiosa em unidades prisionais do estado. O acesso aos presídios, porém, teria sido usado para fortalecer contatos com membros da facção. As denúncias contra eles acenderam o alerta dos investigadores.
O delegado Victor Hugo Caetano afirmou que o grupo transportava recados, movimentava recursos financeiros e emprestava contas bancárias para ocultar valores do tráfico de drogas.
O elo com Batman
As investigações apontam que um dos principais contatos da família com a facção era Jonas Souza Gonçalves Júnior, o Batman, apontado como uma das lideranças do Comando Vermelho em Mato Grosso. Condenado a 49 anos de prisão, ele cumpria pena na Penitenciária Central do Estado quando conheceu os missionários.
Após deixar o presídio em regime semiaberto, Batman rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu para o Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Mensagens analisadas pela polícia mostram que Rhavenna sabia onde o foragido estava e mantinha contato frequente com ele. Os investigadores concluíram ainda que os dois tinham um relacionamento amoroso.
Nas conversas obtidas no inquérito, aparecem trocas de mensagens sobre operações policiais no Rio de Janeiro e a preocupação de Rhavenna com a segurança do traficante durante ações na região.
O material apreendido inclui fotos, vídeos e áudios que, segundo a polícia, comprovam a proximidade da família com integrantes da facção. Entre os registros estão imagens deles com armas de fogo, joias, grandes quantias em dinheiro e carros de luxo.
Em um dos áudios atribuídos a Rhavenna, ela afirma que precisava retirar dinheiro de casa para entregá-lo a outra pessoa. A investigação sustenta que a filha e os pais participavam da movimentação de recursos provenientes do tráfico.
Para os investigadores, a rotina da família contrastava com o discurso religioso apresentado durante trabalhos de evangelização em presídios e eventos religiosos.
A polícia também identificou uma relação entre Rhavenna e Renildo Silva Rios, apontado como um dos fundadores do Comando Vermelho em Mato Grosso. Preso há mais de duas décadas por crimes como homicídio, tráfico e organização criminosa, Renildo aparecia em conversas e chamadas de vídeo com a investigada.
Segundo o inquérito, o preso enviava presentes para Rhavenna, incluindo joias e um carro. O delegado Victor Hugo Caetano afirmou que a família também teria atuado na lavagem de dinheiro em benefício de Renildo.
Indiciamentos e proibição
Rhavenna, Orminda e Nivaldo Almeida foram indiciados por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Além deles, outras mulheres ligadas ao grupo religioso foram indiciadas por falso testemunho, sob a acusação de terem mentido sobre a relação que mantinham com traficantes durante depoimentos à polícia.
A Justiça de Mato Grosso proibiu a família investigada e outros envolvidos de participarem de atividades de assistência religiosa em presídios do estado. As visitas dos demais grupos cadastrados continuam autorizadas.
Em nota, a defesa de Rhavenna negou as acusações e afirmou que os fatos serão esclarecidos ao longo do processo. A defesa de Orminda também negou qualquer participação da investigada em organização criminosa.