Em uma cerimônia histórica realizada na sede do Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM), em Manaus, na manhã desta sexta-feira (31), Fabi Diniz de Queiroz Pilate quebrou um dos mais sólidos tetos de vidro do sistema de Justiça brasileiro. Ao assinar o termo de posse como promotora de Justiça substituta, ela se tornou a primeira mulher trans a ocupar um cargo no Ministério Público em todo o país.
Natural de Paranaíba (MS) e filha da escola pública, Fabi construiu sua trajetória com fôlego e determinação. Antes de alcançar o posto máximo na carreira jurídica, ela atuou por quase uma década em assessorias jurídicas vinculadas ao MP, além de ter lecionado e advogado. Sua aprovação no concurso público coroa uma caminhada de persistência contra todas as estatísticas.
Mas a conquista, segundo a própria promotora, carrega um peso que vai além do título. Fabi revelou que passou boa parte da vida acreditando que o topo da pirâmide jurídica jamais estaria ao seu alcance. “Achei que lugares de poder não eram para pessoas como eu”, confessou, atribuindo essa sensação de inadequação à ausência total de referências trans em cargos de comando no país.
Foi apenas após os 40 anos que Fabi assumiu publicamente sua identidade como mulher trans. Antes disso, viveu como um homem cisgênero gay afeminado, carregando consigo as marcas de uma sociedade que ainda enxerga com estranhamento o que foge ao padrão. Casada há 15 anos, ela encontrou no companheiro um pilar fundamental para enfrentar o turbilhão da transição. Nem mesmo o apoio doméstico, contudo, a blindou dos olhares de preconceito e das reações hostis de estranhos, que ela classifica como algumas das experiências mais dolorosas desse processo.
Agora, de toga vestida, Fabi enxerga sua posse não como um triunfo individual, mas como um avanço civilizatório para a comunidade LGBTQIA+ e para todos os grupos historicamente alijados dos espaços de decisão. A nomeação, salienta ela, acontece em um momento de alarmante violência contra a população trans no Brasil, onde a expectativa de vida de mulheres trans figura entre as mais baixas do mundo, o que torna cada conquista uma espécie de resistência.
Conduzida pela procuradora-geral de Justiça, Leda Mara Nascimento Albuquerque, a solenidade deu posse também a outros cinco novos promotores substitutos aprovados em concurso público.