Uma sucessão de falhas inaceitáveis transformou a internação de um empresário manauara em caso de polícia. A Polícia Civil do Amazonas investiga uma nova denúncia de negligência com risco de morte, desta vez no Hospital Check Up, envolvendo a médica Ana Clara Beltrão e o neurocirurgião Henrique Oliveira Martins. O episódio, que guarda semelhanças perturbadoras com o caso Benício Xavier no Hospital Santa Júlia, ocorreu no último dia 4 de julho e quase custou a vida do paciente, hoje internado no Sírio Libanês, em São Paulo.
O empresário de Manaus chegou à unidade particular do bairro Adrianópolis, Zona Centro-Sul da capital, dirigindo o próprio carro, lúcido e perfeitamente orientado, se queixando de fraqueza total do lado direito do corpo. O quadro era de Acidente Vascular Cerebral (AVC), e o que se seguiu a partir dali, segundo a denúncia registrada pela família, foi uma demolidora corrente de erros médicos e administrativos que quase o levou a óbito no próprio hospital.
A linha do tempo do atendimento expõe decisões contraditórias que colocaram a vida do empresário em xeque. A médica Ana Clara Beltrão informou inicialmente que não havia vaga de UTI no Check Up e que o paciente precisaria ser transferido para o Hospital Santa Júlia. A família interveio e conseguiu o leito na unidade indicada. Em um movimento contraditório, a própria médica voltou atrás e comunicou que havia conseguido uma UTI no Check Up.
Enquanto aguardava a suposta transferência, o empresário foi flagrado por um familiar vomitando e se afogando no leito. Estava completamente desassistido, apenas com uma técnica de enfermagem de costas. “Corri para levantar a cabeceira dele que não estava da forma correta e ele escapou da morte”, relata o familiar.
A equipe, conforme a família, administrou no paciente uma dosagem excessivamente alta de nitroprussiato, um fármaco que exige controle rigoroso. O medicamento atua relaxando e dilatando os vasos sanguíneos (artérias e veias), o que faz a pressão arterial baixar imediatamente e reduzir a sobrecarga de trabalho do coração. A decisão acendeu ainda mais o alerta da família.
O neurocirurgião Henrique Oliveira Martins, responsável pela cirurgia, simplesmente não foi localizado dentro do hospital naquele momento crítico, enquanto o paciente agonizava à espera do procedimento.
Em meio ao caos, a família foi cobrada a depositar uma caução de R$ 60 mil como condição para a cirurgia, mesmo com o plano de saúde cobrindo o procedimento. Para agravar o quadro, o hospital trocou a ficha do empresário com a de outra paciente, que subiu para a cirurgia no lugar dele, mesmo sem ter direito ao procedimento sem o pagamento da garantia financeira. Apenas depois desse festival de falhas o empresário foi operado.
Investigação em andamento
Neste momento, a Polícia Civil conduz oitivas com familiares, funcionários do hospital e faz o levantamento das imagens do circuito interno de câmeras, que registraram todo o atendimento. As autoridades buscam esclarecer as circunstâncias que quase transformaram um atendimento de emergência em tragédia anunciada.
Transferido em uma UTI aérea para São Paulo, o empresário está neurologicamente estável e em recuperação no hospital Sírio Libanês. Enquanto cuida da saúde do ente querido, a família trava uma segunda batalha: reunir provas e denunciar o hospital e os médicos envolvidos, para que outros pacientes não enfrentem o mesmo.
Procurado pela reportagem, o Hospital Check Up não se manifestou sobre os questionamentos centrais do caso: o motivo da transferência solicitada e depois cancelada, a opção por uma dosagem elevada de medicamento e a troca inexplicável das fichas dos pacientes na hora da emergência.